Paulo Oliveira defende racionalizar antes de industrializar e decidir pela industrialização já na concepção do empreendimento


Em palestra no XII Encontro de Construtores e Incorporadores, o CEO da Aratau apresentou dados do setor, experiências internacionais e um roteiro para definir o que industrializar

A palestra “Industrialização da construção: por que avançar e o que ainda precisa mudar?” abriu a programação técnica do XII Encontro de Construtores e Incorporadores, realizado pelo Secovi-SP e pelo SindusCon-SP nesta quarta-feira (21/10). Convidado do encontro, o CEO da Aratau, Paulo Oliveira, traçou um diagnóstico do setor, apresentou experiências internacionais e propôs um caminho para as empresas decidirem o que industrializar.

Ao citar dados apresentados no seminário “Mãos à Obra”, da Fiesp, no início do mês, Paulo apontou os problemas de capital humano da construção. “Temos produtividade em declínio, escassez de mão de obra, rotatividade recorde de 63%, crise de atratividade, com os jovens não querendo saber mais da construção, e formação em queda, com 50% menos de estudantes de engenharia nas escolas”, disse. Segundo ele, o quadro cobra um preço adiante: “Estamos industrializando, colocando humanoides e robôs na construção, automatizando, mas vai faltar gente para tecnologia e inovação.” Ele lembrou que o mesmo seminário contou com David Fratel, vice-presidente da área de Relações Trabalhistas da CBIC e diretor de Gente do SindusCon-SP, que falou sobre a metodologia das trilhas profissionais, necessária porque, antes mesmo de industrializar, é preciso requalificar e oferecer plano de carreira.

Paulo afirmou que o setor está se movimentando e citou iniciativas como Estratégia BIM BR, Construção 2030, ABC Modular, a plataforma Brasil Viável, do C3, Construa Brasil, a Rede da Construção Digital, Industrializada e Sustentável, do CTI em Redes, e a ABCOM. Sobre o Índice Geral de Industrialização da Construção, da FGV Ibre, disse que, de junho de 2025 a junho de 2026, 15,7% das obras usam algum sistema industrializado e 84% ainda são artesanais. Ele questionou, porém, o que o índice de fato retrata. “Eu não posso dizer que drywall é um sistema industrializado. Ele é industrializado quando eu o aplico num painel e levo o painel pronto para a obra, ou quando produzo no canteiro como se fosse uma fábrica, com condições de controle, de padronização e de qualidade. Caso contrário, é construção racionalizada, assim como as paredes de concreto”, afirmou. Para o executivo, as duas abordagens são válidas. “A racionalização melhora processos no canteiro e reduz perdas, e a industrialização transfere as atividades para a fábrica e padroniza a entrega: fabricação, transporte, montagem. A industrialização está num nível bem superior, mas as duas são importantes”, disse. Ele defendeu o máximo possível de off-site: “É no canteiro de obra que temos problema climático, problema com greve e o controle de um grande contingente de mão de obra direta.”

Entre as tendências, Paulo citou relatório da McKinsey, “From Projects to Products”, que trata da produtização e da personalização em massa. Segundo o estudo, a construção modular deve atingir 130 bilhões só nos Estados Unidos e na Europa até 2030, ante 91 bilhões no mundo três anos atrás. “Está crescendo mais do que o dobro da construção tradicional, pelos mesmos problemas que temos aqui”, afirmou. Sócio da VRX (Virtual Reality Customer Experience), ele mostrou uma solução que associa o BIM a uma plataforma de realidade virtual de videogames e permite ao cliente personalizar o imóvel, com atualização em tempo real do orçamento e do memorial descritivo de acabamentos.

O executivo apresentou o caso do Reino Unido, em que o relatório conhecido como Farmer Review trazia na capa a expressão “Modernise or Die”. Segundo ele, o governo britânico aceitou ser o comprador, desde que os mesmos componentes servissem a habitação de interesse social, hospital, edifício de escritórios e presídio. A empresa Bryden Wood foi contratada para criar plataformas de produto, e das três estudadas uma se adequou às principais tipologias de interesse do governo. “A arquitetura está sendo desafiada a usar a criatividade e apresentar de formas diferentes produtos iguais. Eu posso repetir módulos sem repetir produtos”, disse.

Paulo descreveu duas pistas para a industrialização, com um mesmo modelo produtivo: no setor público, a contratação de produto industrializado pronto; no privado, a adição gradual de componentes. “Quem tem o poder de ativar a cadeia de valor é o próprio poder público. Ele gera escala, gera demanda previsível. Sem demanda previsível, como vou investir em fábrica, equipamento e capacitação?”, afirmou. Como exemplos, citou sete hospitais construídos em 2020, durante a pandemia, pela aliança entre Brasil ao Cubo e Tecverde, com prazo médio de 35 dias entre a contratação e o início da operação; o maior hospital modular da América Latina, da Quick House, com 12.800 m², na Baixada Fluminense; as casas modulares da Vizia no Rio Grande do Sul; e 518 unidades habitacionais entregues em seis meses no estado de São Paulo. Ele defendeu manter competição e neutralidade tecnológica, com plataformas abertas de produto, “o modelo mais democrático para o setor privado”.

Para as empresas privadas, Paulo descreveu uma evolução em degraus: da construção 100% on-site, passando pela racionalização e pela inserção de componentes off-site, até a construção modular. “Eu não começo industrializando, primeiro eu racionalizo”, disse. Ele recomendou começar pelo que se repete e priorizar o que é difícil no canteiro. “Priorizo atividades repetitivas, intensivas em mão de obra, complexas e de maior risco”, afirmou, citando banheiros prontos, kits de instalações prediais, shafts, fachadas industrializadas e escadas pré-fabricadas. A conta, segundo ele, precisa fechar: “Não podemos industrializar porque é bonito, tem que ser econômico.” Ele exemplificou com a fachada. “Se eu olhar só para o custo direto, o painel leve de light steel frame vai custar 12%, 15% mais caro que a alvenaria. Mas, se eu estudar o impacto nos outros sistemas, vou ter estrutura e fundação mais leves, menos tempo de canteiro, mais segurança, menos desperdício e retrabalho, logística mais eficiente, custo financeiro e receita antecipada. Quando somo todas essas parcelas, a industrialização faz sentido”, afirmou.

A decisão, disse Paulo, se toma na pré-construção, com BIM, Target Costing, Engenharia e Análise de Valor e DfMA (Design for Manufacture and Assembly). Sobre o Target Costing, método desenvolvido no Japão após a Segunda Guerra Mundial, defendeu inverter a lógica do projeto. “Por que não definimos um preço-meta e orientamos o desenvolvimento do projeto para atingi-lo? É isso que a indústria faz”, afirmou. Ele apresentou ainda uma plataforma de casas modulares de aduelas pré-fabricadas de concreto para habitação de interesse social, desenvolvida pela Aratau. Segundo ele, o projeto concorre a recursos da Finep, busca alcançar o nível TRL 6 com o DATec aprovado, tem parceria com o SENAI Cimatec, a Sika e uma construtora de Manaus e conta com apoio institucional da ABCP e da ABCIC. “Nosso propósito não é sermos donos desse projeto. Ele vai escalar por licenciamento de tecnologia”, disse. Paulo citou também produtos que, segundo ele, o mercado imobiliário ainda não usa, como a instalação elétrica inteligente, que troca vários cabos por um cabo de rede e economiza cobre, e um sistema que devolve ao reservatório a água fria até o chuveiro atingir a temperatura ideal, evitando, nas contas dele, 24 litros de desperdício por banho.

Ao concluir, Paulo defendeu liderança e perseverança, racionalizar antes de industrializar, o máximo possível de off-site, visão sistêmica e adequação da contratação e do financiamento ao novo modelo produtivo. Disse ainda que Secovi-SP, SindusCon-SP e Fiesp devem articular com o poder público a criação de demanda previsível. “Os investimentos vão vir. Fornecedores e fabricantes de equipamentos vão vir”, afirmou. Ele iniciou a palestra com a imagem de um desenho animado dos anos 1960 para dizer que, “para construirmos o futuro, temos que imaginá-lo”, e a encerrou com uma pergunta ao público: “Estamos prontos para sermos agentes de mudança e materializar o ambiente construído ideal em 2050? Sabemos o que fazer hoje para chegarmos lá?”





Fonte:Secovi

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