Painel aponta indução do poder público, formação profissional e planejamento antecipado como caminhos para ampliar a industrialização da construção


Debate no XII Encontro de Construtores e Incorporadores reuniu representantes da incorporação, da construção, da arquitetura e da indústria de materiais

O painel “Como acelerar e ampliar a industrialização da construção no Brasil?” encerrou a programação técnica do XII Encontro de Construtores e Incorporadores, realizado pelo Secovi-SP e pelo SindusCon-SP na quarta-feira (21/10). A moderação foi do diretor regional do Secovi-SP para a Região do ABC, Milton Bigucci Jr. Participaram o vice-presidente de Tecnologia e Sustentabilidade da entidade, Carlos Borges; o vice-presidente e coordenador do CTQ (Comitê de Tecnologia e Qualidade) do SindusCon-SP, Rodrigo Von; o presidente da AsBEA-SP, Gustavo Garrido; o CEO da Aratau, Paulo Oliveira; e Douglas Meirelles, de Public Affairs Integrated Solutions da Saint-Gobain. O público enviou perguntas por QR code.

Milton abriu o debate com uma provocação. “A industrialização deveria ser uma realidade há 20 anos, mas finalmente está andando, crescendo a passos largos, ao meu ver. Por que essa industrialização ainda não se popularizou no Brasil como nos Estados Unidos e principalmente na China?”, questionou.

Von apontou a falta de uma liderança que articule o setor. “O que falta de verdade é um indutor master. Nosso setor é muito fragmentado: um pensa em construção, outro em incorporação, outro na academia, e ainda não conseguimos ter um organizador de todo esse ecossistema. Cada um dos nossos braços fazendo isso sozinho vai ser mais do mesmo ou ganhos incrementais”, afirmou. Para Gustavo, o caminho passa pela parceria entre arquiteto, incorporador e construtor. “Somos um ecossistema, em conexão permanente. Precisamos entender as fragilidades de cada elo da cadeia e nos ajudar, promovendo treinamentos que podem vir de quem está um pouco mais à frente”, disse. Ele defendeu ainda que as fases críticas do projeto, como o pré-executivo, abandonem a lógica do papel, com reuniões semanais acertadas em contrato, e que o setor saia da bolha. “Precisamos mostrar que o mercado imobiliário é o grande indutor de transformações, é o que traz escala e é o que pode comandar essa transformação”, afirmou.

Carlos disse que há consenso sobre os benefícios da industrialização, mas que a prática ainda se concentra em poucas empresas. “Há um consenso de que é uma coisa boa: previsibilidade, confiabilidade, velocidade. Mas, como ela está sendo praticada, ou você tem uma grande empresa com uma liderança interna que consegue antecipar, ou um fornecedor que faz uma parceria estratégica e vende a ideia de forma mais sistêmica. Isso não é a realidade da grande maioria das empresas”, afirmou. Segundo ele, o setor tem 200 mil empresas, e 97% delas têm menos de 20 funcionários. “Têm um horizonte de curto prazo, pouco acesso a recurso e medo de, daqui a dois anos, não ter nenhuma obra. Portanto, tendem a ser conservadoras e a replicar aquilo que já estão acostumadas a fazer”, disse. Para o vice-presidente, é preciso uma indução do poder público, que regule, induza e contrate, com visão de longo prazo, como no modelo francês de contratação de obras para locação social. “Eles contratavam obras voltadas menos para valor e mais para vida útil e menor custo de assistência técnica”, afirmou. Carlos acrescentou que o papel de entidades como o Secovi-SP e o SindusCon-SP é se articular com o poder público, e que os fabricantes mais estruturados também têm papel importante. Ele ponderou que o caminho não é a industrialização total. “Tem obra que não faz sentido industrializar, em função do tamanho, da escala, da localização e do acesso a equipamentos. Mas o processo é inexorável e vai avançar”, disse.

Milton lembrou que a escala também depende da legislação. “Cada município tem uma legislação diferente, então não tem escala. Sei que cada município é diferente do outro, mas, principalmente para a habitação econômica, deveria haver uma legislação única”, afirmou.

Douglas, na visão da indústria de materiais, disse que o drywall funcionou como porta de entrada. “O drywall é, de fato, uma porta de entrada para demonstrarmos os benefícios e, principalmente, para o aculturamento da população em relação a uma nova tecnologia construtiva. Óbvio que o off-site é tudo o que desejamos, construir na fábrica e levar praticamente pronto para o canteiro, mas preciso passar por toda uma etapa de aprendizado do mercado e dos profissionais”, afirmou. Segundo ele, o consumo de drywall passou de 0,13 m² por habitante, há pouco mais de 20 anos, para 0,73 m² em 2025, com expectativa de 1,4 m² até 2034, nível atual da Argentina, ante cerca de 10 m² nos Estados Unidos. Ele apontou a formação como o principal desafio. “Quantos de nós aprendemos industrialização, processos de gestão na industrialização, projetos e modularidade nas universidades? Ainda é pouco discutido para que consigamos avançar”, disse. O executivo informou que a Saint-Gobain mantém 17 academias de formação e uma parceria com o Senai Tatuapé, firmada em julho, com previsão de formar mais de 180 profissionais, além de dois reality shows de valorização profissional, o “Pedreiro Top Brasil” e o “Mestre Drywall”, com outros fabricantes parceiros.

Paulo respondeu à pergunta sobre por que a industrialização ainda é tratada como inovação. “Se a gente olhar na história, não é inovação. Nada é recente aqui”, afirmou, lembrando que as primeiras pontes do país eram metálicas, fabricadas na Europa e montadas no Brasil. Ele citou a frase de um inventor brasileiro. “Inovação é uma invenção com nota fiscal. Se não vendeu, para que serviu? Como ainda vendemos muito pouco, ainda é uma inovação”, disse.

Sobre a falta de profissionais, Von contou que o CTQ reúne 52 empresas que discutem as mesmas dores. “Para conseguir um estagiário de boa qualificação, já está muito difícil. Cada empresa está fazendo a sua escolinha de engenharia”, afirmou. Ele sugeriu separar a engenharia de produção civil da engenharia de cálculo civil e incluir liderança e gestão de pessoas na formação. Carlos defendeu a revisão da grade curricular. “Estamos falando de conceitos que a academia não ensina para engenheiros e arquitetos. A grade precisa ser revisada e atualizada, e precisamos também capacitar quem já está no mercado nessas novas tecnologias”, afirmou. Milton recomendou aproveitar a oferta das entidades. “Recomendo sempre entrar nos sites das entidades, que têm manuais e cursos, muitas vezes gratuitos, mas a procura é muito baixa, infelizmente”, disse. Gustavo citou o Prêmio Saint-Gobain AsBEA, voltado à arquitetura industrializada. “A arquitetura é sedutora, e prêmios valorizam essa atividade”, afirmou.

Sobre a logística em grandes cidades, Gustavo defendeu o planejamento desde o projeto. “É fundamental pensar desde o projeto e ter o escritório de arquitetura como parceiro, porque aí não entramos só no mérito do edifício, mas no planejamento das subpeças que vão passar na rua estreita e transitar nos horários permitidos”, disse. Paulo reforçou que a decisão se toma antes do canteiro. “A pré-construção não é só o projeto: é o planejamento, o plano de ataque, a logística, o suprimento, é tudo. É o lugar de pensar muito, e demorar para pensar, para que a obra seja um flash”, afirmou.

Von e Gustavo defenderam ainda um papel mais amplo para o arquiteto. “Nos Estados Unidos, o arquiteto faz o projeto inteiro e é responsável por todas as disciplinas. Se conseguíssemos que o arquiteto fizesse esse trabalho e fosse remunerado para isso, ele teria todo o cabedal para optar pela industrialização”, disse Von. “É como se na orquestra faltasse o maestro. O escritório de arquitetura precisa ser mais complexo para abarcar essas questões e oferecer o melhor serviço”, completou Gustavo.

Ao final, Paulo respondeu a uma pergunta sobre o ambiente de investimento e foi pragmático. “A industrialização é inevitável. Não estamos mais diante de uma opção, mas de uma urgência setorial para resolver o problema de como produzir. Simples assim”, concluiu.





Fonte:Secovi

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