Em Webinar, Secovi-SP aponta mercado imobiliário resiliente no interior paulista, apesar de desafios econômicos e políticos


O mercado imobiliário do estado de São Paulo encerrou o primeiro trimestre de 2026 com resultados robustos em vendas, apesar de uma retração nos lançamentos, especialmente no segmento do Minha Casa Minha Vida. Os dados foram apresentados nesta terça-feira, dia 27/5, pelo Secovi-SP em webinar que reuniu 60 participantes, representantes do setor, para debater os resultados das 42 cidades pesquisadas no interior paulista, na Baixada Santista e na Região Metropolitana de São Paulo.

A abertura do evento ficou a cargo de Ely Wertheim, presidente executivo do Secovi-SP, que trouxe um diagnóstico direto sobre o ambiente político e regulatório que cerca o setor. Wertheim alertou para dois temas que considera críticos: a regulamentação da reforma tributária e a proposta da jornada de trabalho de seis por um. Sobre a reforma tributária, ele afirmou que, apesar de aprovada e em vigor, sua implementação inicial — prevista para 1º de fevereiro de 2027 — ainda carece de regulamentação, e que o prazo pode não ser prorrogado. “Preparem-se. Falem com seus contadores. O assunto é seríssimo, gravíssimo, pode gerar multas pesadas para as empresas incorporadoras, loteadoras e administradoras de imóveis”, afirmou.

Em relação à escala seis por um, Wertheim foi categórico ao afirmar que o setor imobiliário terá dificuldades significativas caso a medida seja aprovada no Senado Federal, conforme esperado. Segundo ele, a mudança impactará especialmente as obras em andamento, com risco de aumento de custos, falta de mão de obra qualificada e até atrasos nas entregas. “O trabalhador da construção civil provavelmente vai perder renda, porque grande parte do seu rendimento é por tarefa. Se ele não estiver na obra, não vai receber”, explicou. Para Wertheim, o tema deixou de ser uma questão técnica para se tornar essencialmente uma disputa política, em ano eleitoral.

Celso Petrucci, diretor de Economia do Secovi-SP, apresentou em seguida o panorama macroeconômico e os dados do mercado paulistano. Ele destacou que o país vive o sexto ano consecutivo de crescimento do PIB, com estimativa de 1,9% para 2026, enquanto o PIB da construção civil deve fechar o ano com crescimento de 1,2%. O mercado de trabalho segue aquecido, com geração de cerca de 150 mil empregos formais por mês no país e aproximadamente 30 mil vagas mensais na construção civil. Em alguns estados, como Santa Catarina, a taxa de desocupação está próxima de 3%, indicando escassez de mão de obra.

Entre as preocupações de Petrucci, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) ocupa lugar central. Atualmente em torno de 6% ao ano, o índice pode chegar a 8% ou 9% num curto período, pressionado pelo conflito no Oriente Médio e pela alta nos custos de materiais. Outro ponto de atenção é a trajetória da Selic, cuja meta de encerramento do ano já é projetada por parte do mercado em 13,25%, bem acima das estimativas feitas no início de 2026. Apesar disso, o diretor de Economia ressaltou a resiliência do financiamento imobiliário, que cresceu 12% em valores e 16% em número de unidades no primeiro trimestre.

Na cidade de São Paulo, os últimos 12 meses registraram o lançamento de 138,2 mil unidades, movimentando R$ 80 bilhões. As vendas somaram 114 mil unidades e R$ 58 bilhões no mesmo período. O Minha Casa Minha Vida responde por 62% dos lançamentos e 65% das vendas, reflexo da crescente participação do programa nos resultados do setor. Em contrapartida, o segmento de médio e alto padrão apresentou no primeiro trimestre queda de 20% no número de unidades lançadas e de 21% no valor vendido no primeiro trimestre.

Marcos Kahtalian, sócio-fundador da Brain Inteligência Estratégica, empresa responsável pela análise das 42 cidades do interior e região, apresentou dados que reforçam o cenário de demanda aquecida. A pesquisa de intenção de compra realizada pela Brain no primeiro trimestre de 2026 identificou que 49% dos brasileiros pretendem adquirir um imóvel, patamar que se mantém elevado desde meados do ano anterior. Desse total, 29% têm intenção de compra de curto prazo — até um ano — e outros 39% planejam comprar em até dois anos, totalizando quase 70% com intenção consolidada.

Kahtalian destacou que esse apetite pela aquisição de imóveis tem base em fundamentos econômicos concretos: seis anos seguidos de crescimento, menor taxa de desemprego histórica da série da PNAD, crescimento real dos salários e disponibilidade de crédito. “Ele tem o imóvel que pode comprar, tem crédito para comprar e esse crédito vem crescendo, com previsão de 16%”, afirmou. Outro dado citado pelo pesquisador foi o volume de formações e dissoluções familiares: aproximadamente 1 milhão de casamentos e 400 mil separações são registrados por ano no Brasil, gerando demanda estrutural e permanente por moradia.

Nas 42 cidades pesquisadas — que reúnem 16 milhões de habitantes e representam 36% do PIB estadual e 35% da população do estado —, o primeiro trimestre mostrou queda de 15% nas unidades lançadas, mas crescimento de 7,9% nas unidades vendidas. O Valor Global de Vendas (VGV) vendido cresceu 16,8%, chegando a R$ 9,6 bilhões no trimestre e a R$ 38,5 bilhões no acumulado de 12 meses. Somando São Paulo e o interior pesquisado, o setor movimentou cerca de R$ 96,5 bilhões em vendas nos últimos 12 meses.

A queda nos lançamentos foi explicada em grande parte por um compasso de espera dos incorporadores em relação ao novo teto do Minha Casa Minha Vida, cujas alterações começaram a se materializar a partir do segundo trimestre. Kahtalian projeta uma recuperação forte nos lançamentos do programa já nos próximos meses. “Se eu estiver apresentando [no próximo trimestre], podem me cobrar”, brincou. O estoque disponível nas regiões pesquisadas está em nível saudável: disponibilidade de 20% sobre o total ofertado, bem abaixo do limite de 30% considerado referência pelo setor.

Entre os destaques regionais, Vale do Paraíba e Grande ABC registraram as maiores variações positivas em lançamentos, com crescimento de 137% e 31%, respectivamente. Em vendas, Franca, Marília, Presidente Prudente e Bauru se sobressaíram. Ribeirão Preto acumulou R$ 7,7 bilhões em VGL nos últimos 12 meses, contra R$ 1,7 bilhão em 2023, evidenciando uma transformação expressiva. A Baixada Santista se destacou nos empreendimentos de outros padrões, dado o perfil do mercado local, enquanto Campinas e Sorocaba lideraram no segmento Minha Casa Minha Vida.

O preço médio das unidades nas regiões pesquisadas chegou a R$ 9.600 por metro quadrado, com ticket médio de R$ 620 mil para imóveis de 64 metros quadrados. O valor médio do Minha Casa Minha Vida na região ficou em R$ 276 mil, com preço médio por metro quadrado girando em torno de R$ 6.200. Kahtalian e Petrucci chamaram atenção para o fato de que empreendimentos de alto padrão em cidades como São José dos Campos, Ribeirão Preto, Campinas e Baixada Santista já alcançam valores entre R$ 15 mil e R$ 20 mil por metro quadrado — patamar que seria impensável há poucos anos. “Ficamos um período grande de anos para romper o patamar de R$ 10 mil no interior. E agora ele não só foi rompido, como está sendo corrompido”, observou Petrucci.

Frederico Marcondes Cesar, vice-presidente do Interior do Secovi-SP, encerrou o evento com avaliação positiva sobre a maturidade e a solidez do setor, mas fez um alerta sobre os desafios operacionais à frente. Para ele, o maior problema agora não é vender, mas entregar os empreendimentos com prazo, qualidade e margem diante do cenário de custos crescentes.





Fonte:Secovi

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